A ciência se baseia na relação
que existe entre o mundo real e o mundo das teorias. Os cientistas
acreditam que o mundo real contém certas regularidades
e que elas podem ser descritas por um processo racional de
pesquisa. Os cientistas supõem que tais teorias espelham
de forma relativamente perfeita a realidade. Apesar das teorias
científicas serem invenções da mente
humana servem para captar alguns elementos do mundo exterior.
A idéia de que o universo possui certos sistemas que
estão ao alcance da pesquisa racional, e capazes de
serem ordenados, se devem mais às tradições
religiosas, que propõem uma divindade racional criadora
do universo. Esses atributos antes reservados apenas ao criador
são universais, absolutos e atemporais, podem ser enunciados
por equações matemáticas relativamente
simples.
Poucos cientistas se preocupam em perguntar
por que o mundo físico possui certas regularidades.
Muitos diriam até que essa questão não
é científica. Mas nas últimas décadas
tem havido um crescente interesse da parte de cientistas pela
natureza das leis universais. De onde surgem tais leis? Devem
ser essas leis ou existirão outras possíveis?
Até que ponto nossa própria existência
como observadores conscientes do mundo físico é
governada por essas leis? Quando se fala de cosmologia, o
estudo do universo, as condições iniciais que
acompanharam o nascimento do universo na grande explosão
do Big Bang teriam de ser aceitas como dadas. Elas não
podem ser explicadas por processos anteriores, pelo simples
motivo de que o Big Bang representa a origem do tempo. As
leis primordiais do universo devem ter a propriedade da transcendência,
ou seja, a existência é independente da lógica
do universo. Elas dependem de haver um universo para elas
se manifestarem, mas não para sua existência.
A motivação dos cientistas
é a convicção de que elas representem
algum aspecto da realidade. Sem essa ligação
a ciência não teria sentido. Se as leis primordiais
viessem a existir junto com o universo, não poderiam
explicar como o universo veio a existir. Uma lei de condições
iniciais não pode surgir depois da origem. Assim a
pesquisa científica se destina a uma seqüência
de aproximações cada vez melhores da “verdade”,
ou seja, das leis reais que regem o universo. Espera-se que
essas leis sejam descobertas, e não sejam meras invenções
humanas destinadas a organizar dados. Será que estas
leis estão à margem temporal do universo? Por
que sempre parece possível enunciar de maneira simples
e elegante as leis fundamentais do universo? Se o universo
teve de ser do jeito que é, nossa existência
é inevitável? Está escrito nas leis da
física? E se essas leis fossem diferentes?
Uma
possibilidade é o princípio antrópico,
segundo o qual existem diversas realidades paralelas com suas
próprias leis. Porém em apenas um microscópico
subconjunto do universo haveria condições adequadas
para o surgimento da vida, e somente nesses mundos “tão
especiais” surgiriam observadores curiosos comentando
como “fantástico” é seu universo!
Ou pode haver um “lei das leis” capaz de formar
toda vida e consciência. Se tudo isso ocorreu por acidente
ou por desígnio é assunto pessoal. Não
vejo atualmente como a ciência pode responder a essas
questões tão fascinantes.
autor:
Ives Alejandro - professor de Física
|