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Retrato de Dom Pedro de
Alcântara, Armand J. Pallière, 1830
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Para começo de conversa, os três
Regentes que controlariam o Governo seriam escolhidos pela Assembléia
Geral (Câmara e Senado).Por sua vez, esta Assembléia
havia sido eleita no 1. Reinado por voto censitário, o que
na prática fazia desta eleição algo pouco representativa
da sociedade brasileira, uma vez que este voto restringia a participação
política a 3% da população.
Como você pode perceber, esta
eleição estava longe de ser democrática.
Dentro deste processo, uma coisa tem
que ficar clara. Pela primeira vez na história de nosso país,
o controle da máquina Estatal ficava nas mãos de brasi-leiros.
Finalmente, dirá você. Agora os problemas seriam todos
resolvidos.
Nada disso. O período Regencial
que se iniciou com a abdicação de D. Pedro I foi um
dos períodos mais conturbados da História do Brasil.
Mas por que? Se neste momento o poder
se concentrava nas mãos de bra-sileiros, onde estaria o problema?
Para facilitar o seu entendimento, vamos
lembrar de algumas coisas que já foram ditas anteriormente.
O Banco do Brasil, gerenciador de todas
as finanças públicas, faliu em 1829. Em outras palavras,
o Estado estava falido.
D. Pedro I levou consigo a corte, não
ficando sequer parentes próximos além de seu filho,
herdeiro do trono real. Isso representou um desmantelamento da máquina
estatal, pois os nobres portugueses controlavam os principais pos-tos
de comando, tanto civis quanto militares.
O Governo Regencial representava somente
os interesses de um pequeno grupo formado principalmente pelas elites
de regiões próximas ao Rio de Janei-ro, então
centro das decisões políticas. Defensores de uma unidade
nacional, este grupo se opunha tanto aos interesses populares quanto
aos das elites de outras regiões do país que defendiam
o Federalismo.
Diante desta situação
não é difícil imaginar a pouca ou nenhuma autorida-de
do Governo Regencial sobre a sociedade. Também não é
difícil perceber que diversos interesses até então
abafados, vão agora se manifestar contra este Estado desorganizado.
É, portanto, sobre este conturbado
Período Regencial (1831-1840) que trataremos neste capítulo.
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A
Organização político-administrativa.
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O Período
Regencial é em geral dividido internamente em duas partes:
a Regência Trina - Provisória e Permanente - (1831- 1834)
e a Regência Una (1834-1840).
A Regência Trina
Provisória (abril a julho de 1831)
Logo após
a abdicação de D. Pedro I, era eleita uma regência
trina às pressas para ocupar o vazio de poder criado pela
ausência do Imperador. Esta regência foi eleita provisoriamente
para tentar manter a ordem do Estado até que os deputados
e senadores pudessem se reunir no Rio de Janeiro (muitos estavam
fora da Capital) para uma eleição definitiva.
A Regência Trina
Permanente (1831-1834)
A Regência
Trina Permanente que como o própio nome explicita deveria
se manter no poder até a maioridade do herdeiro, perdurou,
somente, até o ano de 1834.
A Assembléia Geral, responsável pela eleição
dos Regentes, era interna-mente dividida em três grandes grupos:
Os Restauradores, que chamados de
"Partido" português durante o Pri-meiro Reinado,
eram minoritários dentro da Assembléia e defendiam
a restau-ração de D.Pedro I ao trono.
Os Exaltados, formados pelos setores mais federalistas do antigo
"Parti-do" Brasileiro, defendiam uma reforma política
que trouxesse a descentraliza-ção do poder do Estado.
Eram, contudo, minoritários na Assembléia.
Os Moderados, assim como os exaltados,
faziam parte do "Partido" Brasi-leiro durante o primeiro
Reinado. Eram majoritários na Assembléia e defendi-am
um projeto de Estado Nacional unitário e centralizado.
Como os Moderados tinham a maioria
dos votos, eles que acabaram por definir a escolha dos Regentes
: o brigadeiro Francisco de Lima e Silva (pai do futuro Duque de
Caxias), José da Costa Carvalho e João Bráulio
Muniz.
É importante reforçar
que os Moderados apesar de controlarem a Assem-bléia Geral,
representavam apenas os interesses dos setores centralistas das
elites (em geral da região Sudeste).A maioria das elites
brasileiras, contudo, defendiam uma maior autonomia para suas regiões
de origem.
Perguntará você portanto:
Por que esta Assembléia possuía então uma maioria
centralista se a maioria das elites brasileiras (os eleitores) eram
defen-sores da descentralização do Estado?
A resposta é muito simples.
Esta Assembléia havia sido eleita durante o primeiro Reinado
sob as pressões de D. Pedro I, que atuava violentamente con-tra
aqueles que questionavam a centralização do poder
- os exaltados.
Veja que a situação
política era realmente intranquila e de quase absoluta ingovernabilidade.
Tanto os restauradores como os exaltados agiam contra os regentes,
buscando a implementação de seus projetos.
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A
Guarda Nacional
Um bom exemplo da situação de ingovernabilidade
dos regentes pode ser demonstrada pela necessidade de criação
da Guarda Nacio-nal. Criada em 1831 pelo então ministro
da Justiça Padre Diogo Feijó, era formada pelos
filhos da aristrocacia ligada aos moderados. Tinha a finalidade
de reprimir revoltas em setores do Exército ligados
aos res-tauradores e conter movimentos sociais ligados aos
exaltados.
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Esta turbulência
política no interior da máquina do Estado tomou novos
rumos a partir das eleições legislativas de 1834.
A morte de D. Pedro I no mesmo ano pôs fim aos interesses
restauradores, facilitando os acordos políti-cos dentro da
Assembléia Geral.
Após
as eleições, surgiram duas facções políticas
provenientes da fusão dos partidos anteriores : os Progressistas
e os Regressistas. Apesar de muito semelhantes, uma diferença
básica os distinguia.
Naquele momento a principal discussão
política dentro da Assembléia Ge-ral era como manter
a unidade territorial diante dos inúmeros movimentos sepa-ratistas
que eclodiam em todo o país.
Os Progressistas defendiam, então,
um maior diálogo com as elites revol-tosas e propunham para
isso o estabelecimento de uma maior autonomia para as províncias,
sem contudo propor o federalismo.
Os Regressistas, por sua vez, acreditavam
que para garantir a unidade na-cional era preciso acabar com os
focos de rebelião fortalecendo principalmente as áreas
militares do poder central.
É importante lembrar a você
que a maioria dos membros Progressistas e Regressistas vieram dos
antigos Moderados, comprovando assim que as fron-teiras entre ambos
não era tão nítida.
Os Progressistas, logo após
as eleições, possuíam uma pequena maioria que
os permitiu comandar uma reforma constitucional que viabilizasse
seus projetos políticos. Esta reforma ficou conhecida como
o Ato Adicional de 1834 que representou o início do chamado
"Avanço Progressista".
Os Partidos
Políticos no Império
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A regência do Padre Diogo Feijó(1835-1837)
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Como
havia sido previsto no Ato Adicional de 1834, eleições
foram organiza-das para a escolha de um Regente único.
O Padre Diogo Antônio Feijó, criador da Guarda
Nacional, é eleito.
Logo
de imediato ele se vê obrigado a enfrentar a oposição
daqueles que veêm uma contradição no Ato
Adicional que propunha um Regente único para o país
e uma autonomia para as províncias. No entanto, se analisarmos
melhor o Ato percebemos que, apesar de ter sido considerado
por muitos como "progressis-ta", esta autonomia provincial
que ele propunha na prática não existia. Isso
se devia ao fato de que as assembléias provinciais eram
subordinadas aos presi-dentes das províncias que, por
sua vez, eram nomeados pelo Governo central. Autonomia, portanto,
só existia no papel.
Além
dos opositores, Feijó ainda teve que enfrentar e conter
as revoltas que neste momento atingiam seu auge, como a Cabanagem
no Pará e a Farroupilha no Sul, que veremos a seguir.
Pressionado
por todos os lados e acusado de não conseguir deter o
aumento das rebeliões, em 1837 Feijó renuncia. |
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A Regência de Araújo
Lima (1837-1840)
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Com
a saída de Feijó, entra em cena Araújo
Lima como Regente único.
O
período em que governou é considerado para muitos
historiadores como "Regresso conservador".
"Regresso conservador ? Se o período anterior considerado
"progressista" cor-respondia somente aos ideais dos
Moderados, imagine o que seria um "Regres-so conservador"...
O
governo de Araújo Lima correspondia muito mais aos anseios
dos setores mais conservadores (Regressistas) da sociedade brasileira.
Estes acusavam o Ato Adicional de 1834 de ter incentivado a
anarquia geral, principalmente por ter características
descentralizadoras. Por isso os Regressistas eram favoráveis
a uma maior centralização político-administrativa,
a fim de manter a Unidade Nacional e acabar com as revoltas
regenciais.
Como realizar então tal difícil e fundamental
tarefa? |
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O Golpe da Maioridade
(1840)

A Sagração de D. Pedro II, Manuel
de Araújo, Porto Alegre, 1842 |
Uma das
primeiras realizações dos Regressistas foi aprovar
em maio de 1840, a Lei Interpretativa do Ato Adicional de 1834.
Contrária à autonomia provincial esta Lei minimizava
os poderes das Assembléias Provinciais, colocando a polí-cia
judiciária sob o controle direto do poder central. Iniciava-se
assim, um perí-odo de grandes conquistas para os setores
Regressistas.
Para alguns importantes membros do Partido Regressista, no entanto,
só um Imperador com grandes poderes poderia acalmar o
avanço da anarquia e ao mesmo tempo manter a tão
ameaçada Unidade Nacional.
Não podemos nos esquecer aqui que o filho de D. Pedro
I tinha apenas quinze anos e era, portanto, "menor"
de idade. Restava aos Regressistas antecipar a maioridade do
garoto para que ele assumisse o poder e servisse de "marione-te"aos
seus interesses. |
Foi
exatamente o que aconteceu em julho de 1840 com o chamado Golpe
da Maioridade, em que o governo passa para as mão do filho
de D. Pedro I, que então recebe o título de D. Pedro
II.
Resta-nos aqui algumas reflexões.
O
golpe da maioridade não agradava somente aos Regressistas
que queriam de volta a Monarquia. Ele também agradava aos
Progressistas, pois lhes interessa-va muito voltar ao poder e manter
suas conquistas.Você deve estar se lembran-do que a diferença
entre estes segmentos não era tão grande assim. Como
di-zia-se na época : "nada tão parecido com um
conservador como um liberal no poder". O
apoio ao golpe estava garantido.
Como
podemos perceber, a volta da Monarquia e do Poder Moderador (que
havia sido criado pela Constituição de 1824) foi um
golpe muito bem armado pelas elites conservadoras de nosso país
para conter o que eles chamavam de "avanço do liberalismo",
frear as Rebeliões Regenciais e ainda manter a unida-de política
e territorial.
Com
isso conseguiram manter os privilégios da elite rural, preparando
o cená-rio político para o Segundo Império.
As Revoltas do Período
Regencial
Como
você já deve ter percebido, a situação
política no período regencial era bastante tensa.
Dentro da Assembléia geral os conflitos entre regressistas
e progressistas provocava um vai-e-vem nas relações
entre o Estado e a socieda-de. Os dois grupos buscavam, por caminhos
diferentes, a unidade nacional, a-creditavam que o poder de decisão
sobre o Estado deveria continuar no Rio de Janeiro.
Longe
da capital nacional, em várias regiões do país
o pensamento da socieda-de era bastante diferente. As discussões
políticas também giravam acerca da unidade nacional
só que num enfoque completamente diferente. Ela era dura-mente
criticada e o seu fim era visto, por muitos, como algo positivo.
Os
movimentos defendendo maior autonomia política para as provínicas,
ou seja, o federalismo, não tardaram em se transformar em
movimentos separatis-tas, emancipacionistas.
Mas
por que? Perguntará você. Por que os brasileiros buscavam
formar outras nações?
Imagine
comigo a situação política do novo país
pela perspectiva daqueles que viviam longe dos centro de decisão
( o Rio de Janeiro ) e que não podiam parti-cipar politicamente.Para
estes, a independência ficou muito aquém dos seus interesses.
As
longas distâncias que separavam o país, por vezes mais
de um mês de via-gem, lembrava bastante a época em
que o poder estava em Lisboa. Durante o primeiro reinado se aliava
o fato de que o herdeiro do trono português era nos-so imperador.
Agora na regência, as reformas ficaram muito aquém
do deseja-do mantendo-se entre outras coisas o poder centralizado
no Rio de Janeiro e a exclusão política da imensa
maioria da sociedade.
Todas
as revoltas do período regencial foram diferentes uma das
outras mas, todas de alguma maneira buscavam maior autonomia política
para suas regiões e em ampliação da partipação
da sociedade nas decisões governamentais.
Movimentos
como a Cabanagem (Pará) chegaram a efetivar um modelo políti-co
republicano de ampla participação popular.
O
Pará foi uma República independente? Sim, e não
foi só o Pará. Maranhão, Bahia, Rio Grande
do Sul e Santa Catarina também proclamaram independên-cia
do Governo Central.
Como
estava a Unidade Nacional? Ela simplesmente não existia e,
se hoje exis-te foi principalmente porque todos estes movimentos
emancipacionistas foram esmagados.
Enquanto
no Rio de Janeiro progressistas e regressista discutiam quem ficaria
no poder, as forças armadas deste mesmo Estado que estava
sendo barganhado, era colocado para reprimir violentamento todos
os movimentos políticos fora dos limites governamentais no
Rio de Janeiro.
A
repressão aos movimentos separatistas marcou um dos momentos
de maior carnificina da história de nosso povo. De um lado
a sociedade civil, na maioria do tempo desarmada e desorganizada
e do outro lado o exército e a marinha com carta branca do
governo para massacrar as populações "rebeldes".
No
Pará a chacina provocada pelo governo culminou na morte de
40% da po-pulação. Isso mesmo, 40% dos paraenses foram
chacinados.
Uma
a uma, todas as revoltas foram sendo esmagadas, o que nos leva a
conclu-ir que as forças armadas foram fundamentais na concretização
da Unidade Na-cional. Uma reflexão contudo, merece ser feita:
"a que preço?"
A
unidade nacional brasileira foi garantida graças a uma conjunção
das forças mais conservadoras das elites brasileiras que,
por controlarem a máquina do Estado puderam utilizá-la
- principalmente o exército- para impor o seu projeto de
Nação.
Que
projeto era este?
Era
o projeto conservador, regressista, muito bem descrito pela "Lei
Interpreta-tiva ao Ato Adicional de 1834" (1840), que diminuiu
muito os poderes das as-sembléias legislativas provinciais,
centralizando ainda mais o poder no Rio de Janeiro. A recriação
do Conselho de Estado, o enorme fortalecimento das for-ças
armadas e o golpe da maioridade são outros bons exemplos
deste projeto.
Concluindo, o projeto de Estado Nacional que saiu vitorioso e que
acabou por delinear o futuro do país era elitista, autoritário,
centralizado e militarizado. Este perfil acabou se impondo e em
larga medida se matém até nossos dias.
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Principais rebeliões
do Período Regencial
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Nome
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Província
|
Data
|
Líderes
|
Causas
|
Fatos
principais
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| Cabanagem |
Pará
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1833
1836
|
Malcher,
Vinagre, Angelim
|
Revolta
dos liberais contra o presidente nomeado pelo governo regencial;
situação de miséria dos cabanos. |
Domínio
sobre Belém durante um ano e lutas no interior; morte
de 40% da população da província. |
| Sabinada |
Bahia
|
1837
1838
|
Dr.
Sabino Álvares
|
Insatisfação
com as autoridades impostas pela Regência. |
Organização
da República Bahiense |
| Balaiada |
Maranhão
|
1838
1841
|
Manuel
"Balaio", Raimundo Gomes, Cosme
|
Insatisfação
com o presidente nomeado pela Regência e revolta de vaqueiros,
fazedores de balaios e escravos fugidos. |
Conquista
da Vila de Caxias; anistia. |
| Guerra
dos Farrapos |
Rio
Grande do Sul
|
1835
1845
|
Bento
Gonçalves, Giuseppe Garibaldi
|
Altos
impostos, exigência de mudanças políticas,
exemplo das repúblicas platinas. |
República
de Piratini; República Juliana, anistia. |
A CABANAGEM (1833 - 1836)
A província do Grão-Pará,
que no começo do século XIX englobava os atuais estados
do Pará e Amazonas, vivia economicamente do extrativismo
florestal. A maioria da população vivia em vilarejos
ribeirinhos, por todo o interior. As exportações dos
produtos extraídos eram controladas por uma pequena elite
de comerciantes em Belém, na maioria portugueses.
As relações entre essas elite portuguesa e a população
local estavam bastante tensas desde 1823, mas a partir da abdicação
de D. Pedro I a situação piorou. Sem a proteção
do monarca, os comerciantes portugueses viram-se em maus lençóis.
A revolta da população acrescentou à luta pela
autonomia política um ingrediente classista, tornando-a uma
luta contra a exploração social. O movimento popularizou-se
e de todas as revoltas regenciais essa foi a de maior participação
das camadas mais pobres da população.
A revolta que explodiu em 1833 demorou quase dois anos para conseguir
implantar um regime republicano de grande participação
popular.
A repressão por parte do governo central diante da iminente
independência de parte de seu território foi espantosa.
Em 1836, quando o movimento foi definitivamente abafado, a província
contrabilizava por volta de 40 mil mortos. Isso mesmo, 40 mil mortos
de uma população que girava por volta de 100 mil habitantes.
O massacre por parte do governo regencial evidenciava sua estratégia
diante dos movimentos separatistas.
A FARROUPILHA (1835 -
1845)

Guaúcho - Angelo Agostini, 1904
A Guerra dos Farrapos, como também
ficou conhecido o movimento, eclodiu em 1835 no Rio Grande do Sul.
Os grandes estrangeiros, criadores de gado da região, voltaram-se
contra o governo central porque este havia privilegiado a carne
argentina e uruguaia com baixas tarifas alfandegárias. Segundo
o governo central, o monopólio do charque gaúcho provocava
preços extorsivos nas regiões consumidoras, do Rio
de Janeiro, de São Paulo e de Minas Gerais.
Sobre a liderança de um grande estancieiro, Bento Gonçalves,
as elites gaúchas armaram-se e passaram a exigir um melhor
tratamento e maior autonomia do governo central. O movimento radicalizou-se
e os conflitos armados eclodiram.
As batalhas entre tropas imperiais e milícias formadas pela
população local, sob o controle dos grades proprietários,
tornam-se crônicas. À proclamação da
República do Piratini (Rio Grande do Sul) seguiu-se a República
Juliana (Santa Catarina). Nessa parte do conflito um dos mais destacados
líderes foi Giuseppe Garibaldi, um italiano que posteriormente
participou ativamente da unificação de seu país.
Os conflitos a partir de 1842 tomaram novos rumos. A indicação
de Luís Alves de Lima e Silva, na época Barão
de Caxias, como governador da província trouxe de um lado
um aumento significativo da repressão e ao mesmo tempo negociações,
através das concessões alfandegárias, com setores
das elites locais. O movimento foi gradatificante sufocado até
finalmente sucumbir definitivamente em 1845, quando a "paz"
imperial foi imposta à região.
A SABINADA (1837 - 1838)
E A BALAIADA (1838 - 1841)
Os movimentos sociais que ficaram conhecidos
como Sabinada (Bahia - 1837/1838) e Balaiada (Maranhão -
1838-1841) devem ser vistos como fruto de um complexo momento da
história de nosso país: o Período Regencial.
Assim como a Farroupilha e a Cabanagem, esses movimentos questionavam,
dentre outras coisas, o grau de interferência política
do poder central nas províncias. Por isso mesmo, todos eles
tinham como objetivo a autonomia provincial.
As elites locais desejavam desde muito tempo o total de controle
político da sua região e por este motivo jamais aceitariam
o poder central forte; principalmente em se tratando de um governo
provisório, como era o Governo Regencial.
A Sabinada diferenciou-se de outros momentos sociais pelo fato de
Ter sido organizada por setores de camada média da Bahia
que clamava por um governo republicano próprio para a região.
Liderada pelo cirurgião Francisco Sabiano Alvares da Rocha,
o movimento ganha o apoio de uma parte das tropas de governo, e
o presidente da província, indicado pelo governo regencial,
é obrigado a abandonar o cargo.
Os revoltosos instauram na região a república baiana
que deveria perdurar até D. Pedro II assumir o Trono. O novo
governo, no entanto, acaba por ser rapidamente destituído
pelo governo central, uma vez que possuía bases de apoio
em outros setores da população ou mesmo em outras
províncias. A repressão se fez violenta e em 1838
muitos são massacrados.
O clima tornava-se cada vez mais violento nos anos seguintes. Os
movimentos de contestação ao governo alastravam-se
nas províncias e a população carente buscava
cada vez mais melhorar suas condições de vida.
Um exemplo claro dessa situação foi o que aconteceu
na Balaiada.
Grosso modo, poderíamos caracterizar a Balaiada como uma
série de movimentos sociais em que negros e sertanejos do
Maranhão lutavam contra sua miserável condição
social. E não era para menos. Vejamos o porquê.
A província maranhense era composta na sua grande maioria
por escravos e sertanejos pobres ligados à pecuária
ou à lavoura do algodão. Com a independência
dos EUA, o algodão produzidos pelos maranhenses vai sofrer
uma forte concorrência, abalando ainda mais a frágil
economia da região. Não demorou para que essa população
se levantasse contra a crise instaurada. É importante lembrar
que o movimento da Balaiada tinha também outros interesses
que envolviam elementos de duas facções políticas
locais - o grupo liberal "Bem-te-vi", contrário
ao governo, e o grupo dos "Cabanos", conservador.
Esse antagonismo de forças no interior do movimento acabou
contribuindo para o seu isolamento e, apesar de várias vitórias,
faltava-lhe unidade. Aproveitando-se de tal situação,
o novo presidente da província, coronel Luís Alves
de Lima (futuro Duque de Caxias), vai acabar com o movimento, dando
anistia aos envolvidos em 1841.
| Você
Aprendeu: |
- Neste capítulo você ouviu muito falar em
Unidade Nacional, isso se deve ao fato de ter sido justamente
no Período Regencial que esta questão ocupou
o centro das preocupação políticas.
O nosso país que possuia e ainda possui pro-porções
continentais sempre teve em diferentes e distantes regiões
interesses políticos múltiplos e por vezes
contraditórios. Naquele momento, estas contra-dições
afloraram e diante da centralização do Estado
as alternativas dos seto-res sociais excluidos do poder
foram a revolta e a luta por autonomia e liberda-de.
- É importante lembrar também que o projeto
de Estado Nacional que acabou se impondo foi aquele de interesses
dos setores mais conservadores das elites bra-sileiras de
então.
|
C a
d e r n o d o p r o f e s s o r
Gostariamos
que neste capítulo fossem retomados alguns conceitos fundamen-tais
que muitas vezes não estão nada claros para os alunos.
Sugerimos então a discussão sobre Estado, Nação,
Estado Nacional, País, Federalismo e centra-lismo.
Acreditamos ser o Período Regencial e o início do
Segundo Império como o momento chave da formação
da unidade nacional no nosso país e, portanto, o mais adequado
momento para a construção destes conceitos.
Lembramos também que diante do crescimento dos movimentos
separatistas e xenofóbicos em todo o mundo, inclusive em
nosso país, se torna bastante inte-ressante o estudo das
revoltas regenciais. Para tal estudo os textos complemen-tares ao
Capítulo podem ser de grande utilidade.
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