Lúcia Helena Storto
Sidney Aguilar Filho

Capítulo 11
Introdução
            Você deve estar se questionando: No capítulo anterior o Império ia bem, estava estável , e agora já vive uma crise ?
Não estranhe tanto! Havia sim uma certa estabilidade no Império durante as décadas de 1850 e 1860, mas esta estava firmada em bases não tão sólidas quanto se podia imaginar na época.
            Se você vivesse aquele momento, veria seu país aumentar as exportações e adquirir a tão almejada paz interna. Por outro lado, veria uma das últimas sociedades do mundo a utilizar a mão-de-obra escrava.

            Por isso seu país vivia uma enorme contradição: enquanto a comunidade internacional falava em acabar com a escravidão no mundo, o Brasil aumentava muito as importações dos escravos negros africanos para trabalhar no café.
Dessa maneira não é difícil imaginar que em pouco tempo essa estabilidade iria se romper, tendo como principais motivos a crise da escravidão e suas conseqüências diretas na vida econômica e política do país .
Engenho de mandioca,
Modesto BrocosY Gomes, 1982

A questão negra

            A escravidão humana no mundo ocidental já vinha sendo questionada desde o século XVIII . Os filósofos iluministas e posteriormente os princípios jacobinos da Revolução francesa professavam a igualdade de nascimento entre todos os homens. Com a Revolução Industrial essas idéias ganharam um novo contorno. P fim da escravidão e o assalariamento da mão-de-obra ampliavam os mercados consumidores, muito disputados pelos grandes industriais, principalmente ingleses.
            Durante a primeira metade do século XIX , o rápido desenvolvimento industrial na Europa e nos Estados Unidos promoveu um movimento internacional pelo fim da escravidão. Muitos falavam por questões humanitárias , outros tantos por interesses meramente econômicos. Seja como for, a tendência de fim da escravidão impunha-se sobre o mundo ocidental.
            No Brasil, essas pressões internacionais já podem ser percebidas nos tratados de 1810 e no reconhecimento da independência junto a Inglaterra. Em ambos os casos, o Estado brasileiro comprometeu-se em abolir a escravidão a médio prazo , o que não aconteceu.
Em 1844 as relações entre Brasil e Inglaterra acirraran-se ainda mais com a adoção das tarifas Alves Branco. Era o limite. O Parlamento inglês em 1845 criava o Bill Alberdeen decretando a proibição internacional do trafico negreiro.


            No Brasil a reação dos senhores de escravos, principalmente os produtores de café, foi uma enorme corrida pela compra de novos contingentes de negros, o que aumentou ainda mais o trafico no Atlântico. A resposta inglesa não tardou. A partir de 1848 a marinha inglesa passou a afundar navios negreiros inclusive nas águas territoriais, chegando em alguns casos e desembarcar em terras brasileiras.
            Criava-se uma tensão pré-guerra entre o Brasil e a maior potencia mundial que não podia continuar. Em 1850 o numero de escravos que entrava no Brasil havia se reduzido muito por conta da repressão e não havia condições diplomáticas para manter o trafico. É nesse momento que o Estado brasileiro implementa a lei Eusébio de Queirós abolindo o trafico negreiro. A partir desse momento uma nova realidade se impôs ao tema da escravidão: era uma questão de tempo para que ela acabasse. O Congresso Nacional apressou-se em criar nos meses seguintes a Lei da Terra, criando a propriedade privada da terra. Mediante o fato de que a propriedade de escravos , que garantia o status quo das elites brasileiras , era ameaçada, eles fundaram um novo mecanismo de controle social: o acesso à terra.
            Outra conseqüência importante do fim do trafico negreiro foi um aumento significativo no preço dos escravos, o que acabou promovendo fluxos migratórios de negros , obviamente forçados, do Nordeste e de outras regiões para a região do café. Esse movimento migratório e os inúmeros escravos comprados até a proibição foram suficientes para suprir as necessidades dos barões do café por cerca de duas décadas . No final da década de 1860 a falta de mão-de-obra nas fazendas de café, principalmente nas novas fronteiras agrícolas no oeste paulista, tornou-se crônica.
            A adoção de mão-de-obra assalariada era a solução. O problema era que o nosso país , a partir de 1865, se tornou o único no mundo ocidental a possuir escravidão institucionalizada, o que assustava os imigrantes que preferiram outras regiões da América. Motivo principal para a incipiente imigração ( comparada a outras regiões do continente ate 1888 ) . O movimento abolicionista ganhou um forte aliado: parte da elites cafeicultoras.

Movimento abolicionista ? Que movimento era esse ?

            Esse movimento era formado por todos aqueles que eram favoráveis ao fim da escravidão. Dele participavam negros livres e escravos. As fugas de cativeiros aumentaram o que acirrava a falta de mão-de-obra. Muitos movimentos populares e médio-urbano apoiaram. Não nos esqueçamos que varias rebeliões populares no período regencial falavam em acabar com a escravidão.
Não entendi! Dirá você. Os setores populares, vários setores médio-urbanos e ate os setores mais ricos da elites brasileiras queriam a abolição da escravidão. Porque então ela não acontecia?
Perceba uma coisa, alem desse apoio social pro-abolição ainda existiam as pressões internacionas o que reforçava muito esse movimento.
            O problema era que as elites que controlavam o congresso nacional não queriam abolição e o imperador apesar de não poder faze-lo não fazia. Preferiram manter o escravismo ate o seu esgotamento completo. Pensando em termos sociais essa questão clareia o comportamento desse Estado com o povo. As elites que detinham o poder político preferiram seus privilegios de donas de seres humanos, entravando inclusive o desenvolvimento econômico de outros setores da elite econômica. Tanto o Partido Liberal quanto o conservador tornaram-se defensores da conservação da escravidão.
            A posição do Estado brasileiro acabou por desgasta-lo favorecendo sua crise. Um bom exemplo dessa crise pode ser verificada no surgimento em 1870 do Partido Republicano que a partir de 1871, com a convenção de Itu , tornou-se a voz dos cafeicultores. Imagine, as elites responsáveis por quase metade das exportações Brasileiras falava em Republica.
Enquanto isso o Congresso Nacional controlado pelos setores mais conservadores das elites brasileiras buscavam prorrogar a escravidão. Criaram leis com objetivos de diminuir as pressões internacionais (as chamadas "leis para ingles ver ") como a do ventre livre ( 1871) e das sexagenário (1885) mas se negaram a discutir o tema central: a abolição.
O desgaste provocado no Estado Imperial brasileiro pelas pressões internas e externas a favor da abolição e sua relutância em faze-lo estão entre as principais causas de sua crise e do advento da Republica.
            A crise do Império e o advento da Republica, alem da questão negra tratada anteriormente, estavam ligados a uma serie de outros fatores. Dentre estes, um de extrema importância refere-se a política externa do segundo reinado.
            Com a estabilidade da unidade nacional brasileira, o fim dos movimentos separatistas, somados ao crescimento econômico trazido pelo café, o Estado nacional brasileiro, agora fortalecido, passou adotar uma política externa mais agressiva e independente.
            Essa nova postura do Estado brasileiro em parte explica os conflitos diplomáticos entre Brasil e Inglaterra que acabou culminando com o rompimento das relações entre nosso país e o maior Imperio do mundo naquele momento.
            As relações entre Brasil e Inglaterra já não vinham bem desde os anos 40 . As tarifas Alves Branco de um lado e o Bill Aberdeen de outro são bons exemplos.
            A questão cristie (1861-1865) como ficaram conhecidos os choques diplomáticos entre o embaixador Willian Cristie e o estado brasileiro, representou somente o estopim. O rompimento por quase 3 anos entre a diplomacia dos dois paises so foi resolvido com a interferência da comunidade internacional que deu ganho de causa ao Brasil. Ficava claro para o Estado e a sociedade brasileira que o Brasil era reconhecido como nação soberana pela comunidade internacional, mesmo em se tratando de um conflito com maior potencia mundial.
            O fortalecimento do Estado-nacao não era um privilegio exclusivo do Brasil naquele momento. Quase todos paises da América Latina passavam por algo semelhante. Algumas décadas após os movimentos dos de Independência vários paises buscavam naquele momento uma afirmação de seus interesses regionais, tanto em termos políticos, quanto econômicos e militares.
            Os conflitos fronteiriços multiplicavan-se e as diplomacias foram se tornando tensas culminando com varias guerras. Dentre estas, os conflitos platinos nos quais o Brasil se envolveu mereceram um grande destaque.



A questão platina


            A Argentina, assim como o Brasil passou por uma serie de conflitos internos. De um lado, as elites de Buenos Aires queriam o estabelecimento de um Estado nacional forte e centralizado. Do outro lado, as elites de províncias distantes da capital lutavam por federalismo e autonomia.
            A nação Argentina, liderada pelo maior defensor do Estado centralizado, o presidente Juan Manuel Rosas, conseguiu anexar todo centro sul do país, praticamente dizimando os indígenas, dando a configuração da Argentina atual.
            Rosas e seu grupo buscavam também resgatar a unidade do antigo vice reinado do rio do Prata, em outras palavras procuravam a anexação do Uruguai a Argentina. As pretensões de Rosas não eram pequenas, pois na realidade queria ele um pais que controlasse toda bacia platina. Naquela época a disputa pelo controle da navegação e do comercio na região platina, era provavelmente o mais importante conflito latente, envolvendo não só os interesses internos a Argentina como todos os paises da região, incluindo o Brasil.
            O principal ponto de tensão encontrava-se nas margens de Buenos Aires, O estuário do rio do Prata, porta de entrada e saída para todo o interior da América do Sul. A disputa pelo controle dessa região já haviam suscitados conflito entre o antigo Império espanhol e português, provocando a guerra cisplatina e agora, na década de 1850, eles voltavam a tona.
            A intervenção do governo argentino na política interna do Uruguai não repercutiu nada bem no Rio de Janeiro. O Estado brasileiro considerava o Uruguai uma zona de influencia fundamental ao nosso pais e segundo nossa diplomacia, a liberdade de circulação pela bacia platina só seria garantida ao Brasil com a manutenção no Uruguai de um governo contrario a Argentina e favoravel ao Império brasileiro. Em outras palavras Brasil e Argentina brigavam de Imperialismo e agrediam a soberania uruguaia.
            O apoio de Rosas ao Partido Blanco ( sob a liderança de Oribe ) e de ouro lado o apoio de D. Pedro II ao Partido Colorado ( liderado por Rivera ) Tensionaram a questão platina ao máximo, levando a guerra em 1851. A guerra contra Rosas e contra Oribe, como ficou conhecida no Brasil, foi na realidade um conjunto de intervenções do Brasil na política interna da Argentina e, como de costume, do Uruguai. O Estado brasileiro apoiou militar e economicamente os movimentos contrários a Rosas em varias províncias argentinas, levando o general Urquiza, líder dos federalistas do norte da Argentina, a presidência da Republica. No Uruguai, os colorados apoiados pelo Brasil voltaram ao poder.
            A Política interna do Uruguai nos anos seguintes continuaram tensas, os conflitos entre Blancos e Colorados acirravam-se ainda mais. No começo da década de 1860, os Blancos liderados por Aguirre, questionavam não apenas os Colorados, mas também as constantes intervenções brasileiras. Tornaram-se comuns ataques dos Blancos à fazendas gaúchas em toda região fronteiriça. Em 1864, Aguirre chegava ao poder do Estado uruguaio, provocando a ira do governo Brasileiro. Dessa vez os Blancos subiram ao poder sem o apoio argentino, mas com um novo aliado: O Estado paraguaio, sob a liderança de Solano Lopez.
            A aproximação do Estado paraguaio não agradava ao Estado argentino e muito menos ao brasileiro, pois representava uma nova força na luta pelo controle da região platina. Naquele momento o equilíbrio da região estava dividido entre Argentina, Brasil e Inglaterra e nenhuma outra nação era bem vinda.
            A intervenção brasileira e argentina no Uruguai, que ficou conhecida como a guerra contra Aguirre (1864) promoveu a derrubada dos Blancos e o retorno dos Colorados ao poder. Provocou também uma imediata resposta por parte do Estado paraguaio: A guerra.



A Guerra do Paraguai

            Um questionamento que deve estar passando pela sua cabeça é o motivo pelo qual o Paraguai se meteu em guerra com os dois maiores países da América do Sul.
            O motivo principal era sem dúvida a conquista de uma saída garantida para o oceano. O Paraguai naquela época vivia em situação atípica em toda América Latina: possuía uma economia forte, estável e com significativo desenvolvimento industrial. Buscava naquele momento se lançar ao comércio internacional para dar continuidade ao seu desenvolvimento econômico, daí a importância de uma saída para o oceano.
            O Paraguai havia conseguido chegar em uma situação em que a miséria e o analfabetismo foram praticamente erradicados. Apesar dessas conquistas econômicas e sócias evidentes, politicamente o Paraguai vivia a décadas uma ditadura bastante violenta, comandada nesta época por Francisco Solano Lopez.
            O Estado paraguaio visava, ao apoiar Aguirre e o partido Blanco Uruguaio, controlar indiretamente o estuário do Rio do Prata. Quando o Brasil e a Argentina se negaram a permitir a intermediação paraguaia no Uruguai e recolocaram os Colorados no poder. Solano Lopez determinou a invasão do norte da Argentina e da província do Mato Grosso no Brasil. Estava iniciada a guerra.
            Brasil, Argentina e Uruguai firmaram uma aliança militar. Essa Tríplice Aliança tinha como objetivo unir as forças militares dos três países para derrubar Solano Lopez do poder e, principalmente inviabilizar a formação de uma nova potência regional industrializada: O Paraguai. Presumi-se que aqui portanto que a Inglaterra, então o maior fabricante de produtos bélicos e detentora quase absoluta dos mercados sul americanos apoiaria a guerra do lado da Tríplice Aliança.
            Durante os primeiros tempos de guerra, por incrível que pareça, a hegemonia foi paraguaia. Os bem treinados soldados paraguaios impuseram pesadas derrotas ao exércitos inimigos. Com o passar do tempo, o desgaste paraguaio provocado pelo completo bloqueio comercial ocasionou, além de crise econômica, isolamento militar.
            Enquanto isso, Brasil, Argentina e Uruguai faziam enormes empréstimos junto à Inglaterra e compravam o que havia de mais sofisticado em termos bélicos na época. No Brasil, especificamente, as forças armadas aumentaram drasticamente o número de soldados, como os chamados "voluntários da pátria". Reestruturadas as forças da aliança militar, as primeiras vitórias começaram a acontecer já no ano de 1866, mas foi a partir de 1867, quando o comando da Tríplice Aliança passou para as mãos do Marques de Caxias, que elas se multiplicaram. Em 1869 os aliados invadiram assunção. Solano Lopez morreu em batalha.
            O resultado da guerra não foi nada bonito. Para o Paraguai, a morte de quase 75% da população pode dar a medida do grau de violência utilizado na guerra. De uma sociedade estimada em quase 1 milhão de pessoas antes da guerra, restaram por volta de 250 mil homens, a grande maioria deles eram meninos e velhos. Todas as estruturas produtivas do país foram destruídas. O Paraguai perdeu parte de seu território e teve a sua população colocada na miséria. Nunca mais conseguiu se reconstruir.
            Para o Brasil, o fim da guerra trouxe um aumento significativo na crise do Império. A morte de quase 100 mil homens, o agravamento da situação financeira do Estado pelas dívidas contraídas com a Inglaterra e principalmente com o enorme fortalecimento do Exército brasileiro são algumas das principais causas dessa crise.




O Advento da República

            O Brasil das décadas de 1860 e 1870 passou por muitas mudanças. A Guerra do Paraguai talvez tenha sido o principal acelerador das transformações mais, sem dúvida, não foi o único fator responsável. O esgotamento da escravidão e suas repercussões sociais, e a ascensão de uma nova elite econômica, a cafeicultora, e a incapacidade do Estado monárquico, arcaico e retrógrado para administrar os conflitos políticos também contribuíram bastante para a falência do Império.


A questão militar

            O retorno do Exército com o fim da guerra do Paraguai marcou o início de uma nova fase das relaç&otilntre os militares e o Império. O Exército era agora uma forçde;es ea político-militar muito maior do que antes da guerra. As novas ideologias nascentes republicanas e abolicionistas que circulavam principalmente entre o médio oficialato não foram bem recebidas pelo Estado imperial. As tensões políticas ficaram mais fortes com a proibição de os militares se posicionarem politicamente em público e também pelas denúncias de corrupção na caixa de previdência do Exército (Montepio).
         As repercussões nos quartéis do envolvimento de políticos no envio das poucas verbas destinadas ao auxílio dos ex-combatentes somadas aos baixos salários, fizeram com que o republicanismo se espalhasse dentro do braço armado do Estado imperial. Evidenciava-se a crise.

Charge da revista Ilustrada mostrando a questão militar. O ministério demite o marechal Deodoro de seus cargos.

            As tentativas da Monarquia e seus aliados conservadores de reprimirem a ideologia republicana de dentro do Exército acabaram por provocar o surgimento de fortes lideranças oposicionistas, como o coronel Sena Madureira e, posteriormente, o próprio governador da província do Rio Grande do Sul, o marechal Deodoro da Fonseca. Este acabou afastado do cargo por defender Sena Madureira e outros líderes republicanos. Ficava claro que a base militar do Império não mais apoiava seu imperador.



A questão religiosa

            No Império o catolicismo era a religião oficial do Estado e essa união sempre permitiu uma troca de apoios entre ambos. O Estado através do beneplácito e do padroado tornava-se os clérigos praticamente funcionários públicos. O rei intrometia-se nos assuntos litúrgicos e também financiava o clero. Apesar desta situação desagradar o papado, para o clero nacional não era do todo ruim. Os privilégios dos bispados eram retribuídos com discursos de apoio ao rei nas igrejas.
         Essa união se rompeu nos anos 70 por uma considerável falta de habilidade política do imperador. Em 1872 dois clérigos, um de Olinda, e outro de Belém, resolveram seguir as determinações papais e romper relações com a maçonaria. O impedimento de maçons de freqüentarem as missas e as congregações religiosas provocou grande mau-estar entre as elites políticas e econômicas no Brasil, onde os maçons eram inúmeros. O imperador reagiu à atitude condenando os dois envolvidos à quatro anos de trabalho forçado. Imagine! Dois padres "quebrando pedras"! A reação do conjunto da Igreja não poderia ser outra: a oposição. Os púlpitos tornaram-se, a partir deste fato, não mais propaganda do Império, mas palanque para críticas. Ficava claro que o Império perdia sua principal sustentação ideológica.



O café e a República

            A elite cafeicultora que no final do Império dominava o cenário econômico estava bem distante de controlar o poder político. A vitaliciedade do Senado e a constante negociação de votos mantinham os antigos grupos de elite decadentes no poder político.
            A convenção de Itu (1871) marcou o ingresso dos cafeicultores do oeste paulista no partido republicano que havia sido fundado no ano anterior. A mais próspera elite do país declarava-se abertamente opositora do Império e a favor da abolição da escravatura.
            Barões do café abolicionistas? Que estranho! Dirá você. Não há nada de estranho nisso. O esgotamento da escravidão desde o fim do tráfico negreiro provocavam uma série falta de mão-de-obra, e a imigração de europeus naquele momento era vista como a solução. O problema é que nesta altura o Brasil era o único país no mundo ocidental a possuir escravidão legalizada, o que afugentava os imigrantes que preferiam os países em que a mão de obra assalariada era mais valorizada e os trabalhadores braçais não eram propriedades nem sofriam castigos físicos.



A crise final


            Vamos agora tentar entender como estava a situação do Império de 1880. O imperador havia perdido simplesmente o apoio de sua principal base militar, o Exército. Perdera também a sustentação ideológica da Igreja e ainda sofria a oposição da elite mais rica do país. Não precisava ser nenhum gênio para perceber a falência do Estado imperial cuja única sustentação parecia ser as velhas e decadentes elites que circundavam a máquina estatal atrás de privilégios. O isolamento do Estado diante da sociedade, fruto de sua paralisia, levou ao seu suicídio, em 1888 a princesa Isabel, então regente do Trono, decretou a Lei Áurea e pôs fim a escravidão legalizada. Buscava ela com isso resgatar apoios políticos principalmente entre os cafeicultores, fortalecendo assim o Império.
            O resultado, contudo, da abolição da escravidão para o Império foi trágico. Isabel demonstrou claramente inabilidade política. Não conseguiu apoio dos cafeicultores e acabou perdendo a sustentação dos setores mais conservadores da elite, sua última base de apoio. Era o fim.

  • A lei Áurea deve ser vista em principio como uma tentativa de retomar sustentação política ao Império muito mais do que como uma preocupação humana em relação aos negros. Já vimos que essa tentativa fracassou. O maior problema, contudo, foi que não houve atuação dos grupos realmente abolicionistas, principalmente da comunidade negra, na elaboração da lei. A ausência dos mesmos provocou a decretação de uma legislação que não garantia o interesse dos principais envolvidos, os negros.
    A lei Áurea limitava-se a dizer que a escravidão estava extinta, mas não criava mecanismos para que no dia-a-dia da sociedade isso fosse realmente praticado.





O golpe republicano

            Após o dia 13 de maio de 1888 (Dia da Abolição) as oposições rapidamente se coordenaram, pois as elites conservadoras que dominavam a maquina estatal e abafavam os opositores deixaram de faze-lo.
            A cúpula militar deixou de conter o movimento republicano dentro do Exercito e se unia aos setores do médio oficialato e aos poderosos barões do café.
Finalmente em 15 de novembro de 1889 um golpe militar liderado pelo marechal Deodoro da Fonseca pôs fim ao Império . O previsível e aguardado fim da Monarquia chegara.

  • A crise do Império e o advento da Republica foram o resultado de um conjunto de fatores. Dentre eles destacamos o esgotamento da escravidão e suas conseqüências, a guerra do Paraguai e as posteriores crises militares internas, a perda do apoio da igreja e o repudio das elites mais ricas do país, os cafeicultores.



 

LEITURA COMPLEMENTAR

Cem anos depois o Brasil continua o Império do favor

                  Um século depois da proclamada, a Republica do Brasil ainda não realizou os princípios mais elementares do liberalismo e do republicanismo, consagrados pelas revoluções norte-americana e francesa e importados com cem anos de atraso. As vésperas do século XXI, o Brasil continua a ser um país em que as esferas publicas e privada se confundem e onde o cotidiano e marcado pelos estgmas do favor e do arbítrio.
            De um ponto de vista panorâmico, o período republicano foi marcado por um grande desenvolvimento material . Entre 1870 e 1887, o produto interno bruto do país cresceu 15,551%, o índice mais alto do mundo, segundo dados de Angus Maddison, economista da organização para a cooperação e desenvolvimento Econômico.
            Nos primeiros trinta anos da historia republicana, uma sociedade basicamente rural e exportadora de matérias-primas tornou-se industrial e urbana.
Mas problemas crônicos herdados do período anterior e que remontaram à era colonial - tais como profundas desigualdades sociais e regionais ou a incapacidade para efetivar a cidadania política da maioria da população - persistem como desafio até hoje.
            Na origem dessa situação esta o fato de, no Brasil, a Republica ter nascido de uma sublevação restrita a um grupo de militares e intelectuais, ao contrario do que ocorreu nos Estados Unidos em 1776 e na França em 1789. É sintomático que Aristides Lobo, republicano de primeira hora, tenha feito sobre o episodio um comentário que ficou celebre: "O povo assistiu a tudo bestializado, sem compreender o que se passava.."
            Passados a surpresa e o susto, dois dias após a proclamação, a imprensa já transformava o povo, de "bestializado" , em protagonista dos fatos. Em 17 de novembro, a GAZETA DA TARDE falava no espetáculo de um país que conquista a liberdade sem violência. O jornal O PAÍS, de Quintino Bocaiúva , exaltava a nação que havia feito as revoluções da abolição e da republica sem derramar sangue.
            Já estão aí os germes de dois mitos da historia republicana: a transformação de um movimento militar em "revolução popular" e a interpretação da ausência de conflito como sinal da doçura do brasileiro _ que deságua na idéia de "homem cordial".
(...)
            O caráter autoritário que a republica assumiu tem antecedentes históricos. Enquanto na Europa o ideário burguês ( a universidade da lei, a ética do trabalho livre, a dessacralização da cultura, etc.) se voltava contra os privilégios do Antigo Regime, no Brasil ele funcionou para dissimular privilégios da mesma natureza. (...) Se na Europa e nos Estados Unidos o liberalismo bem ou mal expressava uma realidade das relações sociais , aqui ele não passava de ornamento para legitimar a auto-imagem de "modernidade" da elite política e econômica.
            A ideologia do favor e a apropriação privada do que é publico ainda infestam o dia-a-dia brasileiro. (...) Podem ser constatados no mito do jeitinho brasileiro, nas pessoas que desobedecem sinais do transito ou na clássica pergunta: "Você sabe com quem esta falando?", comum entre burocratas. Cem anos depois da proclamação, cabe à historia da Republica a imagem que se formou na França após o fracasso do movimento de maio de 68: "A historia não se repete, ela gagueja."
(Fernando de Barros e Silva , folha de S. Paulo, 11/11/89 )

 

 
 
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