Desde
que Alexander Fleming descobriu o primeiro antibiótico, a penicilina,
em 1928, o homem e a bactéria disputam uma corrida e a liderança
da competição vem se alterando o tempo todo. A previsão,
porém, é de que os antibióticos, as drogas milagrosas
do século XX, terminem vencidos pela bactéria, um dos
seres mais primitivos na face da Terra. Se isso de fato acontecer,
a humanidade fará uma viagem no tempo em marcha ré:
voltará a era em que as mulheres morriam de parto por causa
de contaminação no sangue, quando uma simples infecção
de ouvido infantil podia se transformar numa terrível meningite
e pequenos cortes, as vezes, provocavam até complicações
fatais.
Ninguém imaginaria um cenário tão funesto, há
pouco mais de dez anos. No início dos anos 80, a impressão
que se tinha era de que, para quase todo mal, havia remédio.
Especialmente, em casos de infecções bacterianas, já
que triunfavam os antibióticos, medicamentos cujo nome significa
"antivida", mas que, na realidade, só agem sobre
bactérias. Assim, a ciência médica se declarou
vitoriosa e voltou para casa cedo demais, Hoje em dia, não
existe absolutamente uma única bactéria que não
seja capaz de se desviar, na melhor das hipóteses, de dois
antibióticos. Algumas espécies, aliás, já
derrotam os mais importantes grupos dessas drogas.
Numa experiência recente, cientistas Ingleses misturaram duas
espécies de bactérias, a Staphylococcus e a Enterococcus.
A primeira era quase imbatível, porque já tinha deixado
para trás os mais de 200 tipos de antibióticos conhecidos,
com exceção de um deles, a
vancomicina.
A segunda espécie, por sua vez, sabia o que fazer para derrotar
justamente a tal vancomicina - e foi esse segredo que transmitiu
para o Staphylococcus aureus, passados alguns dias de convivência
em tubo de ensaio. Isso, ocorreu em 1997, em um laboratório
da Faculdade de Medicina de Londres, na Inglaterra. Mas não
há rastros do estudo, a não ser uma pilha de papéis,
relatando o ocorrido. Dois novos antibióticos lançados
no Brasil em 2000, o Zyvox e o Synercid, funcionam onde a vancomicina
falha. Tomara que por muito tempo.
ÍNDICE
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Causas
da resistência bacteriana
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1.
Resistência plasmidial |
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2.
Resistência cromossômica. |
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3.
Transposons |
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1.
Conjugação |
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2.
Transdução |
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3.
Transformação
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1.
Bactericidas |
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2.
Bacteriostáticos |
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Causas
da resistência bacteriana
As
bactérias surgiram na terra há cerca de 3,5 bilhões
de anos, em ambiente hostil: temperaturas altíssimas, radiações
ultravioleta e cósmicas, tempestades e falta de nutrientes.
Elas superaram tudo e evoluíram para ocupar hoje todos os
hábitats, até aqueles de condições mais
extremas. Sua grande capacidade de adaptação está
associada à estrutura genômica, que garante a troca
de genes entre as bactérias, usando para isso elementos não
cromossômicos: plasmídios, transposons e até
bacteriófagos. Estes últimos destroem as bactérias
hospedeiras, mas podem carregar e espalhar genes bacterianos.
· A causa primária é a mutação
espontânea e a recombinação dos genes (reprodução),
que criam variabilidade genética sobre a qual atua a seleção
natural, dando vantagens aos mais aptos. As drogas atuam como agentes
seletivos, favorecendo as raras bactérias resistentes presentes
na população.
· O uso abusivo dos antimicrobianos contribui para aumentar
a pressão seletiva dessas drogas, criando ambiente muito
favorável às bactérias resistentes.
· A indicação indiscriminada de drogas por
médicos.
· A auto medicação de pacientes (toma-se na
dose errada e em situações erradas como gripe por
exemplo. Lembre que os antibióticos só atacam células
e os vírus são acelulares).
· O uso como aditivo em rações animais, principalmente
para aumentar o peso.
· A tecnologia do DNA recombinante, que permite criar organismos
transgênicos, quase sempre usa como vetores pequenos plasmídios.
Como em geral estes contêm genes de resistência a drogas,
o produto final pode ser contaminado.
· Um só gênero de bactérias do solo,
o Streptomyces, produz mais de 50% dos antibióticos disponíveis
no mercado.
· A maior imunodepressão dos pacientes, decorrente
da AIDS, quimioterapia e maior freqüência de transplantes.
Mecanismos
genéticos de resistência
1.
Resistência plasmidial
Além
do DNA cromossômico, as células bacterianas podem conter
pequenas moléculas circulares de DNA denominadas plasmídios.
Certos plasmídios possuem genes responsáveis pela
síntese de enzimas que destrõem um antibiótico
antes que ele destrua a bactéria. São os chamados
plasmídios R (de resistência aos antibióticos).
Eles também possuem genes que permitem sua passagem de uma
bactéria para outra (fator F).
Quando dois ou mais tipos de plasmídios R estão presentes
em uma mesma bactéria, os genes de um deles podem passar
para outro por recombinação gênica: conjugação,
transformação e transdução. Esse mecanismo
faz com que surjam plasmídios R portadores de diversos genes
para resistência a diferentes antibióticos.
Os plasmídios podem estar integrados no cromossomo, sendo
capazes de transferir genes cromossômicos. Muitos são
promíscuos, isto é, passam o gene de resistência
para espécies não aparentadas geneticamente.
2.
Resistência cromossômica.
Como
a resistência cromossômica depende de mutação
espontânea, evento raro, ela é dirigida quase sempre
a uma só droga e os genes são transferidos com freqüência
relativamente baixa. Por isso, seu impacto clínico é
menor que o da resistência plasmidial.
Não podemos nos esquecer ainda , que bactérias sensíveis
podem receber, de graça, genes cromossômicos mutantes
de bactérias já resistentes, através dos processos
de transformação, conjugação e transdução.
3.
Transposons
Descobriu-se
em 1974 que grande parte dos genes de resistência considerados
plasmidiais ou cromossômicos estão localizados sobre
transposons e apresentam as propriedades destes: disseminação
rápida dentro da célula ou entre célula.

Os transposons são segmentos de DNA com grande mobilidade,
eles codificam a enzima transposase - responsável por sua
transferência para outros segmentos de DNA. Eles são
promíscuos: criam as variações invadindo diversos
sítios do DNA hospedeiro, mas às vezes exageram, produzindo
mutações letais.
Mecanismos
de reprodução em bactérias
1.
Conjugação:
transferência de material genético (DNA plasmidial
e/ou do cromossomo) entre duas bactérias através de
um tubo de conjugação.

2.
Transdução: transferência
de material genético entre duas bactérias feita por
um vírus bacteriófago.

3.
Transformação:
incorporação de um material genético livre
no meio por uma célula bacteriana.
Atuação
dos antibióticos
1.
Bactericidas: Atuam
na membrana plasmática ou parede celular bacteriana, inibindo
sua síntese e provocando sua destruição. Como
exemplo temos os antibióticos penicilina, cefalosporina e
vancomicina que atuam sobre as enzimas responsáveis pela
síntese da parede.
A bactéria pode adquirir resistência produzindo enzimas
(transferases e betalactamases), que alteram ou degradam drogas,
por inibição da permeabilidade da membrana plasmática
e pelo efluxo de drogas - bombeamento de drogas para fora da célula.
2.
Bacteriostáticos:
Atuam sobre o material genético bacteriano (cromossomo e
plasmídio) bloqueando a replicação do DNA e
a transcrição. Atuam também sobre os ribossomos,
RNA mensageiro e transportador bloqueando a síntese de proteínas.
Dessa forma, as bactérias ficam estáticas e morrem.
Como exemplo temos a tetraciclina, o clorafenicol e os novíssimos
zyvox e synercidi.

Tuberculose
- Problema mundial
Dentre
as doenças que afetam o sistema respiratório, há
doenças hereditárias como a fibrose cística,
doenças congênitas como a membrana hialina, doenças
degenerativas como o enfisema e o câncer, e doenças
contagiosas como a pneumonia, a difteria e a tuberculose.
A tuberculose é uma doença transmissível, de
natureza crônica, geralmente de longa duração,
e que ainda representa um grande problema de saúde para as
instituições governamentais, com elevado índice
de mortalidade (2 bilhões de pessoas infectadas e 3 milhões
de mortes) apesar do grande avanço atual da Medicina.
Agente causador - a doença é causada pelo bacilo
Mycobacterium tuberculosis, descoberto por Robert Koch em 1882.
Há diversas variedades dessa espécie, distinguindo-se
a Mycobacterium tuberculosis hominis (tuberculose humana),
a Mycobacterium tuberculosis bovis (tuberculose bovina) e
a Mycobacterium tuberculosis avis (tuberculose aviária).
Contágio - a forma de contágio dessa doença
pode ser aérea, sendo a forma mais comum realizada de pessoa
a pessoa. A contaminação pode ocorrer também
pela ingestão de leite de vaca, carne bovina e seus derivados
contaminados pelo Mycobacterium tuberculosis bovis, fato
este que pode ser evitado com a pasteurização do leite
e de seus derivados.
A forma bovina pode contagiar o homem e vice-versa, mas a tuberculose
aviária não é patogênica ao homem. O
contágio da espécie bovina para o homem determina,
quase sempre, formas extra pulmonares da doença (tuberculose
intestinal, tuberculose óssea, tuberculose ganglionar).
O bacilo de Koch, como geralmente é conhecido o agente
causador da tuberculose, ataca, em 90% dos casos, o parênquima
pulmonar, causando a tuberculose pulmonar. Nos pulmões, as
bactérias provocam a formação de nódulos,
cuja imagem é detectada ao exame radiológico (Raio
X). Se não houver um tratamento eficaz, os nódulos
evoluem para abscessos e geram cavidades na estrutura do parênquima
pulmonar. Excepcionalmente, outros órgãos podem ser
atacados, inclusive as meninges, determinando a meningite tuberculosa
de elevada gravidade.
Sintomas - Clinicamente, a doença se caracteriza por
tosse, expectoração, falta de apetite, emagrecimento,
dor torácica (no peito e nas costas), febre diariamente ao
anoitecer, perda da resistência orgânica e fadiga constante.
Em casos mais avançados pode ocorrer quadros de hemoptise
(hemorragias provenientes dos pulmões, devido à ruptura
de vasos pulmonares durante os acessos de tosse) ou apresentar uma
evolução rápida, levando a pessoa à
morte em poucas semanas.
Erradicação - A erradicação da
tuberculose é dependente de meios profiláticos (preventivos)
e terapêuticos (medicamentosos).
Medida preventiva: a vacina BCG ainda representa a melhor
alternativa para a proteção dos indivíduos,
embora sua eficácia permanece controversa (eficácia
varia de 0 a 75%). No que concerne a segurança, existe uma
preocupação crescente no uso de organismos vivos em
indivíduos imunocomprometidos, fato este ocorrendo em indivíduos
aidéticos.
Medida
terapêutica: o uso de drogas como os antibióticos
isoniazida, pirazinamida e rifampicina (1 comprimido duas vezes
ao dia) por um período de seis meses tem se mostrado eficiente.
No entanto, essas drogas podem causar intoxicações
nos pacientes, levando a uma alta taxa de abandono do tratamento
e o aparecimento de bacilos resistentes.
Vacinas
Gênicas ou de DNA
O
avanço da biotecnologia permitiu o desenvolvimento de uma
vacina de DNA (3ª geração) na FMRP-USP - baseada
num pedaço do código genético do agente causador
- por meio de injeção intramuscular, esse DNA cria
condições para a produção de proteínas
antigênicas pelas próprias células dos indivíduos
vacinados. Foi observado que a vacina pode ter tanto efeito preventivo
como terapêutico, conceito diferente das vacinas tradicionais,
que são usadas apenas como prevenção à
instalação da doença.

Essa vacina de DNA cura a infecção, cura a doença
estabelecida e impede que ocorra reativação da doença,
sem perder a sua capacidade profilática.
Vantagens
da vacina gênica:
*
previne o estabelecimento da infecção e da doença.
* elimina a infecção causada pelo bacilo da tuberculose.
* cura casos crônicos.
* resolve casos de tuberculose multi resistentes.
* impede reativação da doença quando os animais
são tratados com drogas imunossupressoras (AIDS).
* permite que o período de tratamento seja encurtado para
2 meses pela administração concomitante de medicamentos
e aplicação da vacina.
Mas
essa doença nunca será erradicada totalmente, enquanto
não houver melhores condições de vida às
populações carentes, nos países em desenvolvimento.
Todas as pessoas deveriam possuir uma situação mais
digna de nutrição, de moradia, de higiene, de saneamento
e um programa intensivo de educação e de cuidados
básicos de saúde, principalmente às camadas
da população que sofrem mais pesadamente o drama do
desemprego e dos desajustes sociais. Pois, somente dessa forma,
as pessoas poderiam reagir melhor à infecção
bacteriana, fazendo com que ela seja combatida, muitas vezes, até
sem ter sido percebida.
Bibliografia
1. Revista
Ciência Hoje. 1998. v.23, n. 138.
2. Revista Biotecnologia. Ciência e Desenvolvimento
1999. n.10.
3. Revista Superinteressante. 1997. n.6.
4. Revista Superinteressante. 1999. n.1.
5. Revista Superinteressante. 2001. n.2.
6. Martho, G. R. & Amabis, J. M. Biologia das populações.
v.3, ed. Moderna LTDA., 1997.
7. Jornal Folha de São Paulo.
8. Tortora, G.J.; Funki, B.R. ; Case, C.L. Microbiology an introduction.
5th edition; ed. Benjamin/Cummings, 1995.
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