CIDADANIA


          Este conceito nos remete à Grécia Clássica, a Polis Ateniense. Cidadão era aquele que, além de ser do sexo masculino, nascido em Atenas, de pai e mãe atenienses não podia ser escravo. Este tinha suas necessidades garantidas pela Cidade-Estado e em contrapartida possuía o dever de cuidar, administra e agir na Polis: a política.

(A Polis de Atenas na visão medieval)
 


          Entre os cidadãos existia significativa concepção de igualdade de direitos e responsabilidades o que viabilizou a construção do primeiro modelo democrático. Demos Cratia poderia ser facilmente traduzido como cidadãos no poder visto que para os atenienses clássicos Demos era o conjunto de cidadãos. Esta concepção trazida para os nossos dias poderia ser interpretada, na nossa lógica democrática. A coexistência democrática pressupõe a participação política, a cidadania e a igualdade de direitos entre todos os participantes. Em uma democracia para todos os seres humanos, sem nenhuma distinção pressupõem também cidadania, direitos iguais e responsabilidades políticas idênticas para o conjunto social. Verdade na teoria, mentira na prática, infelizmente. Na realidade os modelos democráticos, do capitalismo contemporâneo, seguiram caminhos bastante distintos. As distorções nas concepções de igualdade, principalmente provocadas pelas imensas diferenças econômicas e conseqüentemente desvirtuamento nas campanhas eleitorais. O conceito de política se confundiu com o de negócio e o de cidadão com o de consumidor/produtor. A concentração econômica provocou acumulação de poder político, a exclusão econômica em perda de cidadania e desprestígio político. Os limites entre o capital criminoso, o legal e as instituições públicas - a República - ficaram tênues. A conseqüente usurpação das coisas pública dificulta, cada vez mais, que o Estado possa garantir cidadania plena a todos.

Depósito de lixo perto de São Paulo.
Brasil, 1996
 

Em São Paulo, a maioria das crianças de rua podem ser vistas vagando à noite, também são viciadas em cola, mais recentemente, começaram a fumar crack. A necessidade de dinheiro para comprar drogas levam muitas delas ao crime e à violência.
São Paulo - Brasil, 1996

 


          Nestas últimas décadas, em especial na dos noventas, as diferenças sócio-econômicas se acentuaram profundamente. Mesmo quando algumas pesquisas insistem em dizer o contrário.Riquezas, informações, tecnologia e energia se concentram cada vez mais. Acompanhado de um forte processo de exclusão social. A exclusão não é característica nova na história da humanidade, mas, atualmente, ela ganha contornos assustadores onde o isolamento entre grupos em uma mesma região geográfica se intensifica. Cada vez nos conhecemos menos como comunidade e, menos ainda como sociedade. As perdas dessas noções dificultam muitas a prática política e a cidadania. Diminuir as distâncias entre indivíduos e grupos sociais está se tornando fundamental para evitar choques cada vez mais corriqueiros e pior, infrutíferos. O conflito transformador deve ser percebido sem temor, mas, quando acaba tendo um fim em si mesmo, conservando e acentuando as discórdias, ele merece ser contido. Efetivamente a cidadania, a política e a coisa pública são indissociáveis. Pensar uma coisa sem as outras empobrece a análise. Conseguir construir uma conceitualização que transformada em práxis consiga garantir cidadania, responsabilidade política e preservação da república por todos e para todos é responsabilidade de todo democrata. A democracia representativa e burguesa possui, portanto uma contradição gigantesca a resolver caso queira construir em longo prazo a tão propagada democracia - pelo menos desde as Revoluções Americana e Francesa. As alternativas a essa democracia maltrapilha que vivemos no século XX, contudo, beiraram o bestial - o nazi-fascismo e as ditaduras militares - ou a paranóia coletiva - os modelos stalinistas. Destruí-la por algo novo ou aperfeiçoa-la são alternativas, regredir é ignorância. Fica uma certeza quanto mais ampla a cidadania, quanto maior a responsabilidade política e o respeito às coisas públicas, maior a liberdade e a qualidade de vida para toda a sociedade.

 
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